sexta-feira, 17 de julho de 2009

Algumas considerações sobre o mundo atual desde um parágrafo do “Frankenstein” de Mary Shalley


Marco Aurélio P. Maida
Sócio Fundador da APROFAT

(Associação dos Professores de Filosofia do Alto Tietê)

Para falar sobre o mundo atual eu penso que podemos recorrer a vários recursos, um deles é o passado, pessoas que previram o mundo atual e tentaram expressa-lo através da ficção, ou seja, o virtual, possibilidade do real. A previsão do mundo tem muitos elementos para reflexão, podemos até afirmar que em certas circunstancias, apresenta tantos elementos quanto a percepção contemporânea. Afirmo isso porque algumas pessoas conseguiram antever as conseqüências que as ações de seu tempo promoveriam nesse em que vivemos. Não pretendo afirmar que a história é determinada e algumas pessoas “iluminadas” conseguem ter como dado revelado a previsão dos seus desdobramentos, mas afirmo que algumas pessoas conseguem olhar a forma de pensar/agir de seu tempo e, a partir daí lançar luzes para antever possíveis comportamentos contemporâneos.
O livro de Mary Shalley “Frankenstaein” apresenta o drama de seu tempo e também contemporâneo do humano em confronto com a sua fugacidade e a biotecnologia como recurso para superar tal drama.
Quero parafrasear um parágrafo do dito livro afim de evidenciar esse drama e a “fé” na biotecnologia e propor futuras conversas com os leitores desse texto.
“Minha atenção se fixava em objetos cuja vista era a mais insuportável para a delicadeza dos sentimentos humanos Eu via como a bela forma do homem se degradava e se decompunha; eu assistia a corrupção da morte suceder a florescência da vida contemplava como os vermes herdavam as maravilhas do olho e do cérebro......” (Shelley, 2001. p. 59)
Se nos é apresentado pela autora uma perspectiva otimista da vida e do ser vivo, e ainda mais dos seus sentidos que colaboram na percepção da beleza do ser humano recém nascido e do mundo que o contém. Beleza original, plena de delicados sentimentos humanos, realidades que fixam a nossa atenção e deleitam os sentidos. Porém, em um certo momento essa natureza se degenera e deixa de ser bela, envelhece, apodrece, o homem se degradava se corrompe, se decompõe enfim. Tal teatro de horrores tem o seu fim quando o narrador diz que “os vermes herdavam as maravilhas do olho e do cérebro”...
“A Vida e a Morte me apareciam como limites ideais, que eu primeiro devia transpor, para lançar uma torrente de luz em nosso mundo de trevas. Uma nova espécie me abençoaria como seu criador e sua origem; e muitas criaturas felizes e excelentes passariam a dever a sua existência a mim.” (Shelley, 2001. p. 61)
Mas nem tudo é perdido, ainda resta uma esperança, o ser humano através de técnica pode criar uma “Nova Humanidade” que nasce desde a sua concepção de perfeição e de sua idéia de saúde e beleza. O ser humano melhorado pela biotecnologia que faz da vida algo de manipulável, que prepara os vivos para ser segundo o que diz a autora imagem e semelhança da tecnologia que os construiu, e que deveriam a sua existência a seu criador.
Os projetos atuais nessa ordem, chamados de projeto Genoma e Projeto Biosfera II, são expressão dessa fé.
“Nos cálculos as coisas eram possíveis, o conceito de Biosfera II tinha sido encontrado. Afinou-se ainda mais: introduziram os vários biomas que existem na Terra, com todos os seus nichos microbianos, eliminando ao mesmo tempo a tundra ártica e a profundeza do oceano, pouco práticos. Manteve-se a floresta tropical, a savana, o deserto, o oceano, também dois biomas fabricados pelo homem, a agricultura e a cidade... A imagem na nossa Biosfera I tinha nascido Biosfera II” (Sfez, 1996. p. 189)
Não podemos atribuir um juízo de valor apressado acerca desse fenômeno antes de discutir todas as nuances. Convido às pessoas a ler os textos citados e continuar essa conversa desde perguntas como: o que é o corpo humano? Podemos manipula-lo segundo nosso desejo?
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SFEZ, Lucien, A Saúde perfeita, crítica de uma nova Utopia. São Paulo: UNIMARCO Editora, Edições Loyola, 1996, p.14.
SHELLEY, Mary, Frankestein. Porto Alegre: L&PM Editora, 2001.

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