sexta-feira, 17 de julho de 2009

As tarefas prático-poéticas da esquerda revolucionária

Na sociedade do espetáculo, alguns poucos realizam atividades culturais para que milhões contemplem, passivos e mudos. A classe dominante é a grande beneficiária dessa apatia. Um verdadeiro projeto de libertação humana não pode priorizar a disputa política e a luta econômica e se omitir quanto à atuação no campo estético e cultural.

Segundo Marx, o trabalho é a atividade que define a espécie humana como a única capaz de transformar a realidade à sua volta. Mas, não se trata de qualquer trabalho. Não estamos falando do trabalho alienado que impera na sociedade de classes em geral e na capitalista em particular. Em um trecho dos “Manuscritos econômicos e filosóficos de 1844”, Marx diz:

“A alienação do trabalho faz com que o operário se torne tanto mais pobre quanto maior é a riqueza que produz, quanto mais sua produção cresce em potência e extensão. O operário torna-se mercadoria tanto mais vil quanto maior é a quantidade de mercadoria que produz”.

Esse tipo de trabalho seria uma degeneração do trabalho como atividade criadora. É o trabalho em série nas fábricas, a atividade desgastante na limpeza de ruas, a exploração desumana das minas, o manejo de materiais perigosos e insalubres, as aulas ministradas em salas superlotadas, o atendimento em ritmo e condições infernais nas grandes centrais telefônicas atuais.

Nada disso corresponde à idéia de Marx do trabalho como objetivação das potencialidades subjetivas do ser humano. Como materialização de sua capacidade criadora. Como testemunha da rebeldia humana diante da mesmice cíclica que as leis naturais representam para os outros animais. Tal como não se dobra às leis do cio para se reproduzir ou tirar prazer do ato sexual, o ser humano não se satisfaz com a utilidade dos objetos.

Um macaco pode transformar um pedaço de galho numa ferramenta para arrancar frutos de uma árvore. Pode usar uma folha para beber água. Mas, nossos primos primatas fazem isso há milhões de anos sem grandes variações. Quando o ser humano produz uma caneca tenta reproduzir a postura de suas mãos colocadas em forma de concha para beber. Mas, quando faz enfeites nessa caneca já não se trata de pura e simples utilidade. Um recipiente pode ter a mesma eficácia com ou sem enfeites. Pode ser boa para beber neste ou naquele formato. Ou não. Uma caneca decorada com certos desenhos pode afastar maus espíritos. Beber cerveja numa xícara com certeza parece menos saboroso.

Somos produtos e produtores das condições materiais

É aí que está a diferença da atividade humana. Se somos produtos das condições materiais, também somos capazes de transformar essas condições. É o que diz Marx na primeira das “Teses sobre Feuerbach”. E quando fazemos, conferimos sentidos, significados, símbolos aos objetos, às situações, ao ambiente. É como diz Marx na famosa passagem de “O Capital”. Ele admite que “uma abelha, embora só possua instinto, pode superar em habilidade, vários arquitetos”. No entanto, conclui, “o que distingue, à primeira vista, o pior dos arquitetos, da mais hábil das abelhas, é que aquele constrói suas células na cabeça, antes de fazê-lo na colméia”. Nada supera essa condição. O grande problema é o caráter alienado que essa capacidade assumiu na história humana.

O trabalho humano deixou de ser uma atividade de troca criativa com a natureza. O enorme poder criativo dos seres humanos foi sendo seqüestrado pelas várias sociedades autoritárias. É o saber do sapateiro que foi embutido na máquina que faz sapatos. A habilidade do ferreiro que se transformou em robôs vigiados por sonolentos e aborrecidos olhos humanos. Até os doces e salgados que dependiam das mãos e da sabedoria das cozinheiras são cada vez mais feitos por máquinas que os deixam sem sabor. Com certeza a expressão mais acabada dessa perda da criatividade foi a transformação da atividade humana em destruição. Algo bastante visível nas cada vez mais freqüentes e generalizadas catástrofes ecológicas.

Então, como imaginar essa propriedade original e básica do trabalho como atividade criadora? Se foi esmagada pelo trabalho repetitivo, como imaginar que podemos recuperá-la. A resposta está exatamente na atividade artística. Esta representa aquilo que mais se assemelha ao que pode ser o trabalho como atividade livre, criadora e definidora da essência humana. Segundo Adolfo Sánchez Vásquez em sua obra “As idéias estéticas de Marx”:

“Interessava a Marx (...) definir o homem como produtor não apenas de objetos ou produtos materiais, mas também de obras de arte”.
(...)
“Buscando o humano, o humano perdido, Marx encontra o estético como um reduto da verdadeira existência humana, e não apenas como um seu reduto, mas como uma esfera essencial. Se o homem é atividade criadora, não poderia deixar de estetizar o mundo”.

O problema é que essa estetização do mundo tornou-se escrava do trabalho alienado. E não é preciso muito esforço para enxergar os resultados desse processo em plena era espetacular. Em “Sociedade do espetáculo”, Guy Debord diz:

“Com a separação generalizada do trabalhador e do seu produto perde-se todo o ponto de vista unitário sobre a atividade realizada, toda a comunicação pessoal direta entre os produtores”.

É só olharmos para os cinemas, auditórios, teatros e residências equipadas com televisores. De um lado, são milhões contemplando, atentos ou hipnotizados, sempre passivos e mudos. De outro lado, apenas alguns milhares de produtores culturais, trabalhando em série, pressionados pela manutenção das taxas de lucros.

Práxis e “poiesis”: uma divisão a ser superada

Em outra obra de Vásquez há uma pista sobre a origem do distanciamento entre o trabalho como atividade prazerosa e rica e sua atual realidade torturante e miserável. Trata-se de “A Filosofia da práxis”. Nela, o autor retoma a antiga divisão da atividade humana entre práxis e “poiesis”.

O senso comum costuma traduzir práxis como prática. Atividade repetitiva, sem reflexão e cansativa. Na melhor das hipóteses, uma ação destinada a alcançar um objetivo. A palavra “poiesis”, apesar de menos conhecida, pode ser facilmente identificada com poesia. E esta, por sua vez, ganhou um sentido de lirismo descolado da vida cotidiana. Uma forma de expressão de apaixonados ou desencantados, sem qualquer preocupação ou validade prática. Portanto, a atual conotação desses dois termos expressaria o binômio práxis-"poiesis” como relação de opostos, de antagonismo.

Mas Vásquez explica que os antigos gregos consideravam práxis como uma ação praticada pelo sujeito, que não ultrapassa esse mesmo sujeito. Por exemplo, uma atitude moral, uma opção política ou um estilo artístico. Já a noção de “poiesis”, dizia respeito a uma ação que produz objetos. Ou seja, seu resultado aparece externamente para quem a pratica. Nesse caso, o artesão que fabrica um cesto, exerce uma atividade poética.

Portanto, o atual entendimento de práxis e “poiesis” inverteu seus significados originais. Hoje, seria estranho ao senso comum dizer que a construção de uma casa, ou a fabricação de sapatos são atividades poéticas. No entanto, não seria de todo incorreto comparar o fazer poético ao esforço laborativo próximo do artesanal. Um esforço que ultrapassa o artesanal em um dado momento imponderável e transforma o fazer versos e estrofes em criação original. O ato de fabricar, tecer, urdir transforma-se no artístico, no lírico, no épico.

Por outro lado, confundir práxis com prática é rebaixar o potencial da ação humana. Se na Grécia antiga, práxis surge como postura moral, estética etc, e transforma-se na prática irrefletida do mundo moderno é porque a história caminhou para essa separação que violenta o potencial criativo da humanidade. A origem dessa separação está na divisão da sociedade em classes. Entre os que pensam, planejam, mandam e os que executam, trabalham, obedecem.

O capitalismo é a expressão mais acabada dessa separação. Uma sociedade em que o fazer é fragmentado e completamente separado da criação consciente. Em que a invenção é escrava da quantidade de valor mercantil que é capaz de gerar. Em que os amplos horizontes da criação dão lugar ao acanhamento bilionário da indústria do entretenimento. E pantomimas grosseiras tentam imitar sem sucesso a verdadeira medida do que é (o) ser humano.

Nosso lugar é na política, na história e na arte

É preciso reconquistar a harmonia entre o fazer ritmado do tanoeiro, que fabrica vasos e barris, e o canto das crianças que enchem seus cântaros nos poços cavados por seus pais. É necessário retomar as noções de práxis e “poiesis” de forma a unificar seu potencial prático-criativo. Quanto de esforço artesanal e quanto do imponderável da criação existe numa poesia, numa canção ou numa escultura? Ou seja, quanto de “poiesis” e quanto de práxis? Não existe resposta para essa questão. Porque ela somente é possível em um mundo dividido entre o trabalho manual e a criação. Mas não podemos ficar esperando. Um mundo novo, com suas perguntas e respostas, somente surgirá se as várias manifestações do fazer humano confrontarem seus conflitos e paixões em todos os níveis e lugares. Na arte, na história e na política.

Nesse sentido um verdadeiro projeto de libertação humana não pode restringir-se aos aspectos mais pragmáticos. Não deve priorizar a disputa política, eleger a luta econômica, e se omitir quanto à intervenção no campo estético e cultural. Até porque trata-se de um campo fundamental para a manutenção da dominação e da exploração. Uma esfera em que nossos inimigos se fizeram fortes exatamente porque o abandonamos. Nossas melhores formulações políticas e teóricas serão estéreis sem a sensibilidade radical do fazer poético. E continuarão a reproduzir o mundo árido do fazer sem sentido. Por outro lado, a arte afastada do mundo e suas contradições não é possível. Porque ela seria uma arte fora do alcance dos homens e mulheres. Portanto, nossa abordagem das sensibilidades estéticas, da produção lírica ou épica, terá que ser contaminada pela crueza das ruas e esgotos e arejada por sorrisos possíveis e lágrimas inevitáveis.

Esta formulação não autoriza o pensamento de que só se deve aceitar uma “arte engajada”. Que o poema, a canção, o filme, o conto, a criação plástica tenham que adotar um tema ou motivação ligados à luta social e política. Isto seria a reedição do realismo socialista, de triste memória.

A esquerda revolucionária precisa começar a acertar contas com sua dificuldade em lidar com questões estéticas e culturais. Para começar seria bom abordar a idéia equivocada do realismo como o estilo justo para a arte engajada. Mas, isso fica para o próximo texto.

Sérgio Domingues – maio de 2008

FONTE: REVOLUTASSITE: http://www.revolutas.netPUBLICAÇÃO: 11/04/2009

0 comentários:

Postar um comentário