sexta-feira, 17 de julho de 2009

Insípido, Inodoro, Invisível


Insípido, Inodoro, Invisível


Já não sentia mais o gosto do café e o jornal parecia-lhe desinteressante, como se os fatos, quaisquer que fossem, tivessem perdido a importância.
Por que fumar? Por que não fumar? _ Pensou.
Ele largou o isqueiro sobre a mesa e atirou o cigarro no lixo.
Resolveu aceitá-lo, por mais doloroso que fosse, e levá-lo às últimas conseqüências.
Deus não existe!
O Amor tampouco existe, nem a felicidade ou a sorte, ou os sorrisos que costumava ver.
Nem mesmo a própria vida existia.
O que fazer?
Não sabia. Tinha fome, mas de repente havia se tornado desinteressante comer.
Podia ouvir música, beber, qualquer coisa, precisava esquecer.
Não podia mais suportar aquela angústia, mas havia decidido encarar os fatos e levá-los às últimas conseqüências.
Sentia que era a sua hora e ele era o líder, precisava criar o Amor, a Felicidade e os sorrisos nos rostos das pessoas, precisava mudar o mundo e criar a vida, nada existia, nada era...e ele precisava fazê-lo...
...Sozinho.
Esta palavra deu-lhe medo, sentiu-se desamparado, atirou-se na cama e cobriu a cabeça. Seu corpo tremeu, sentia seu coração palpitar de modo desenfreado, suas mão suavam e sua barriga tornara-se gélida.
Pânico. Abatimento. Devia fazê-lo. Não podia fazê-lo. Não sozinho.
Sozinho. Esta palavra rodava em sua cabeça e seus ouvidos doíam como se uma espada estivesse penetrando-lhes.
Decidiu-se por fazer. Confusão. Sua mente girava. Decidiu o que fazer, seu corpo tremia cada vez mais, quase que numa convulsão. Estava ébrio, estava sóbrio, tanto fazia, era a mesma coisa.
Levantou-se rapidamente, foi até o criado-mudo, pegou sua arma e num gesto brusco, sem piscar, ele fez.



Audrei Teixeira de Campos,

professora , escritora, historiadora.

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