sexta-feira, 17 de julho de 2009

O espelho vê o verso

Marco Aurélio Pinheiro Maida ¹
O Olhar é um caminho, ..., um entre dois mundos: o mundo do que é objetivo, do que está aí, daquilo que é dado como evidente e através da luz se deixa perceber por um outro mundo, aquele que é mais que um mundo, é o i-mundo, uma selva talvez, ..., a selva do em nós, daquilo que é subjetivo.
Quero demorar no fenômeno da subjetividade como selva afim de pontuar a importância do espelho.
A selva do em nós não se deixa perceber por todos, ou melhor, por ninguém, é uma ilha que nunca vai ser visitada a não ser por nós mesmo. É ali que o mundo ganha significado! A selva do em nós é o “verdadeiro mundo”. Acredito que por mais que os sentidos nos digam que vemos as mesmas coisas, e as convenções sociais nos ajudem a conviver, a trocar mercadorias, trocar palavras, esse não é o mundo. Pode ser um construto, um algo que está lá para nos ajudar a conviver! O mundo mora no em nós. Olhar para o espelho mostra esse i-mundo que existe em nós e que nos assusta, parece que a convivência entre esse em nós e o mundo das convenções é, ..., ao limite, divergente!
Ficamos di-fusos (e não confusos) quando pretendemos conviver no entre dos dois mundos. O mundo objetivo organiza a nossa vida entre compromissos e lazer, o i-mundo do subjetivo acredita que não se pode dividir cronologicamente a experiência humana; o mundo acredita que se pode comprar um padrão de beleza, o i-mundo subjetivo não sabe o que é beleza, sente de forma di-fusa a experiência estética e se embebeda com ela...
Assim, fazemos uma de-cisão, como um parto, desligamos o mundo do i-mundo, e (com) vivemos no mundo das convenções. Aquele que se chama louco, decidiu pelo i-mundo, e por isso o isolamos, dizemos que ele não consegue viver no mundo, precisa de um lugar específico, seu i-mundo, não combina com a nossa sanidade... Paranóica sanidade!
Quero te dar um espelho!
O espelho funciona como esse entre dois mundos. Você se olha, e a mágica do entre dois mundos se deixa perceber; a sua imagem é mais que um algo objetivo, é aquilo que você quer ver de você, pode parecer algo i-mundo, que não tem nada a ver com as convenções, mas tem a ver com isso que existe em você, no mundo de significados que é intransmissível, incomunicável, que é só você, e ninguém poderá saber/perceber o que é: Algo de sua loucura, de sua insanidade, situação pré-lógica, e por isso, antes da de-cisão.
O Espelho vê o verso ...
... o corpo, antes de ser masculino ou feminino é potência, híbrido, anterior a determinação, é/sendo possibilidade de construção ...
Quando nascemos não existimos, construímos nossa existência: fábrica sem operários; precisa de ócio e não de trabalho, moinho sem grãos e sem vento – inútil, sem função!
Construímos nossa existência sem precisar de nada que nos anteceda. A cada nascimento um mundo novo se põe em confecção: mundo aberto, em processo de geração constante, um universo que sonha com a relação com o outro, mas se frustra, ..., pois é único e fechado em si ...; AUTOSUFICIENTE! EMBRIONÁRIO...
... DECISÃO!
“AVE MARIA GRACIA PLENA DOMINUS TECUM”
O Espelho vê o verso ...
... AVE MARIA GRACIA PLENA DOMINUS TECUM ...
... EVA AIRAM AICARG ANELP SUNIMOD MUCET ...
... a Santa é também pecadora, e o pecado é santo ...
... porque o Espelho vê o verso.
Fruta do pecado ...
... útero fecundo da nova humanidade ...
... SEMENTE!
Água, Sol, Terra, Ar ...
... útero fecundo da nova humanidade.
O Espelho vê o verso ...
... vida é/sendo movimento...
... caos que impossibilita classificação ...
... transborda vida.
Não tem começo e nem fim, é construída sem pressa: balé eterno de encontros e desencontros constantes. Independe da consciência das pessoas – apenas é/sendo sempre em eterno fluxo.
O Espelho vê o verso ...
... o leitor torna-se a comédia...
... o cotidiano é uma comédia quando o ESPELHO MOSTRA O VERSO.
- Você não vai escrever mais nada, ..., já acabou esse texto? Eu não entendi nada, e agora você fica aí sentado com a caneta parada! Você é louco?
- Não entendi, você me diz que eu sou louco? Louco é quem levanta às 6:00h da manhã para entrar em um trem lotado e agradece a um tal de Deus a oportunidade de ser explorado em sua mão de obra por um dono de empresa que enriquece às suas custas.
- Você está dizendo que todo trabalhador é louco?
- Não; estou dizendo que todas as pessoas que se sujeitam a outra, vendendo a sua criatividade, sua força-trabalho, e acreditam que devem fazer isso como exemplo de pessoas adultas, são loucos varridos e devem ser internados urgentemente.
- Mas o trabalho é fundamental para educar as pessoas e ensinar o nosso papel para o desenvolvimento do país.
- Educar as pessoas? Não entendo o que você está falando! Se eu saio para trabalhar tenho que delegar a educação do meu filho a outras pessoas; loucos são aqueles que ainda acreditam que a escola pode educar alguém: cinqüenta pessoas dentro de uma sala, sob os cuidados de uma pessoa descontente com o que faz; um clima de medo, punição e controle sonda todos os cantos desse lugar; se instaura uma luta de forças entre as pessoas que estão envolvidas no processo, que se pretende educacional, mas que na verdade é patológico, nocivo, demente, neurótico.
- Você acredita que os trabalhadores são loucos porque se vendem para o lucro de outros, que os estudantes e professores são loucos porque se enganam e vivem em batalha constante ao invés de envolver-se em caminhos de conhecimento; o que sobra então desse seu discurso, ..., ninguém é são? E as pessoas que acreditam em Deus, o que você pode falar? São loucos também, ou se pode encontrar algo de sanidade nessas pessoas?
- Deus, ..., que Deus? O que se propaga na fé católica, que não decide se é severo e ciumento ou misericordioso, ..., ou aquele que é divulgado pelo movimento neopentecostalista, que acredita que tudo que está no mundo é pecado, propondo um platonismo de orelha de livro, ..., ou ainda aquele Deus que diz que pode existir uma guerra que é santa, e se você morrer e matar em nome dele você ainda recebe mulheres virgens na outra vida, ..., ou será que é aquele que cobra dinheiro das pessoas para atendê-las em suas necessidades, já não sei mais de qual desses você está falando, você pode ser mais específico senão não conseguirei dar-te uma resposta.
- Você é louco? E saber que gastei meu tempo lendo essas coisas e ainda termino sem entender nada.
- Você não quer admitir leitor, que eu leio você, e não o contrário! Eu me divirto lendo o seu entusiasmo em sair para o trabalho e achar que está fazendo a coisa mais importante do mundo, me divirto em ler você acreditando que a escola é o melhor lugar para educar o seu filho, melhor até que você mesmo ... e, por fim, (risada sarcástica muito alta) me mijo nas calças ao ler você adorando um Deus que, na verdade, nem você mesmo acredita que ele existe, nem você mesmo sabe qual deles você está falando ou com qual você está falando! Continuarei lendo-te leitor, me divertindo com a comédia da sua existência, ..., O ESPELHO VÊ O VERSO
¹ Marco Aurélio Pinheiro Maida, leciona Filosofia e é
Membro Fundador da Associação do Professores de Filosofia do Alto Tietê (APROFAT).

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