Um nome para o seu medo era a última coisa de que precisava.
No início ela não pensava assim, ela catalogava, quantificava e tentava conceituar tudo o que sentia e tudo o que pensava, não demorou para que ela começasse a se sentir mal com isso, quanto mais conceitos ela aprendia maior era a dificuldade para identificar em qual conceito um determinado pensamento ou um determinado sentimento se encaixava.
Uma coisa nunca era só aquilo e isso a deixava desesperada.
Grunge? Punk? Era uma eclética. Por maior que fosse o seu repúdio a tal idéia ela sabia, era uma eclética, não por que quisesse sê-lo, mas por que não conseguia encaixar todas as suas aspirações em apenas um único conceito.
Daí é que vinha o seu total desprezo pelas ciências humanas, jamais pôde entender como algo podia ser julgado como humano e científico ao mesmo tempo, pensava com toda a simplicidade (que a sua adolescência justificava), que se algo era humano logo não podia ser científico e se algo era científico por sua vez não podia ser humano.
Não fazia muito tempo que tudo havia começado, certa noite não conseguiu dormir. Sentia seu corpo pesar e não agüentava seu próprio peso, seus músculos enrijeceram-se e sua pele tornou-se gélida, como morta.
Seu corpo foi tomado por uma forte dor, todo ele, da cabeça aos pés, a dor, contudo não era uniforme, algumas partes doíam mais do que outras e a dor mais forte era uma pressão que sentia sobre o peito, parecia que apertavam-lhe e depois soltavam, em seguida apertavam de novo, isso doía de uma forma estranha, parecia que tinha um líquido gelado circulando dentro dela com força e que a qualquer momento seu peito ia explodir e esse líquido ia jorrar de maneira furiosa.
Sentia uma espécie de cócegas, uma coceira sob o peito, que pulsava e pulsava. Como coçar algo que está sob o peito? Por vezes tentou mas... bem, sabia que era impossível tocar sua própria alma. E desde quando cócegas pulsa?
Cócegas era um nome apenas, assim como coceira, pulsação, sofrimento, era algo que ela imaginava próximo do que sentia e falava (ou melhor, nessa época ela ainda não falava sobre isso, apenas pensava, mas pensava em palavras, apenas mais tarde foi obrigada a falar para a psicóloga, a psiquiatra, o cardiologista, ela bem que tentou mas ninguém a compreendia, na verdade, cada um compreendia da maneira que queria, segundo seus próprios conceitos de cócegas ou sofrimento) como uma metáfora, foi aí que ela percebeu que tudo são metáforas. A metáfora da dor por exemplo, “estou com dor de cabeça” dizia às vezes (nossa amiga era enxaquecosa) e as pessoas entendiam que algo em sua cabeça a incomodava, e as pessoas imaginavam que ela sentia dor, mas...elas não sentiam dor, digo, quando ela falava “estou com dor de cabeça” as pessoas ao redor jamais apreendiam exatamente o que queria dizer essa dor de cabeça, a mesma coisa não ocorria no mesmo instante com a cabeça delas e elas supunham apenas, o que se passava com a cabeça de nossa amiga.
Por vezes estas mesmas pessoas sentiam dores de cabeça também, evidentemente estas dores não eram iguais, umas eram mais intensas? Outras latejantes? Agudas?
Talvez.
Talvez fosse correto dizer que algumas cabeças doíam mais?
Talvez.
Mas a questão não era essa, não era isso que incomodava a nossa amiga, a questão que a angustiava era aparentemente muito mais simples, (vejam bem, aparentemente), umas cabeças doíam mais, outras cabeças doíam menos, diversas cabeças sentiam diversos tipos de dores umas diferente das outras, porém...
“Será (e pensava nisso com um quê de paranóia, como se conspirassem, se eles conspirassem o tempo todo, quem quer que fossem ‘eles’) que quando as pessoas falavam em dor, será que elas se referiam à mesma coisa?”
Pois ela não sabia (e pensava nisso com muito mais sinceridade que as outras pessoas) o que é que se passava com a cabeça dos outros, dizia: “estou com dor de cabeça” ou ouvia alguém dizer “estou com dor de cabeça”, mas jamais saberia se o que acontecia com a cabeça daquela pessoa quando ela dizia que sentia dor de cabeça era o mesmo o que ocorria com a cabeça dela quando ela dizia o mesmo.
Ouviu o diagnóstico com a mesma serenidade que um condenado à morte que já não suporta mais viver, tafofobia era um nome feio, exatamente como ela imaginava seu pânico, bem feio, como as suas unhas arranhando a tampa do caixão (e para ela não havia nada mais feio que a tampa de um caixão), porém não servia de conforto ouvir um nome para a sua dor, ou melhor, para o seu medo, afinal era medo mesmo? Não seria dor?
Não gostava de sua psiquiatra como não gostava de ninguém a quem tinha que expor as suas angústias, no início ela achava que se fizesse isso, se criasse coragem de contar a alguém, não qualquer alguém, como um amigo por exemplo, mas um profissional, um alguém especializado para lidar com essa situação, esse alguém poderia ajudá-la, socorrê-la, imaginava que esse alguém faria isso com o mesmo carinho de um amigo, porém sob os auspícios da medicina ou uma outra ciência qualquer, e que esse carinho, legitimado pela ciência, seria eficaz, mais eficaz que os carinhos dos seus amigos, que nunca foram suficientes, embora eles se esforçassem.
Com a psicóloga a conversa era “menospior”, digo, com a psicóloga havia conversa, ao menos, ela não narrava apenas os seus sintomas mas também as suas angústias, o que fazia com que às vezes ela sentisse mais raiva da psicóloga do que da psiquiatra, uma vez que a conversa com a psicóloga ia mais além a responsabilidade dela era maior, pensava.
_ Eu sei por que eu sinto fome, mas eu não sei por que eu sinto medo, entendeu?
_ Quando você descobrir o porquê as coisas vão melhorar...
E era aí que ela divergia com a psicóloga, porque ela sabia, ela sabia melhor do que ninguém que não havia um porquê, e essa idéia lhe dava mais medo que o seu próprio medo.
Não havia um porquê...
Outro problema que ela enfrentava com a psicóloga era que esta concordava com tudo o que dizia a psiquiatra, como se a psicologia fosse uma ciência inferior que servisse apenas para colocar poréns no diagnóstico da psiquiatria e amenizar um pouco as coisas, mas esse era o papel dela, pintar uma fachada de humanidade no trabalho da psiquiatra, amenizar com frases de efeito e de auto-ajuda os mesmos diagnósticos e dizer “não se preocupe com os remédios que a medicina te obriga a tomar, a psicologia está aqui para não permitir que você fique viciada, não mais viciada do que o necessário...”
Na realidade esta era a grande diferença, do ponto de vista dela, entre a psiquiatria e a psicologia, a primeira era mais radical, afastava todo mundo do trabalho, enchia de remédios e retirava o mal do seio da sociedade, mandando os “loucos” para os hospícios e manicômios, isso devia ser pouco rentável, do ponto de vista do capitalismo, todo mundo afastado do trabalho, menos mão de obra, mais gastos com saúde e previdência, deve ter sido assim (pensava a nossa amiga) que surgiu a psicologia, seu impacto na sociedade era menos danoso do ponto de vista da produção, ela domesticava os loucos, adaptava, mas não ousava romper com a psiquiatria pois necessitava dos seus sedativos, era o plano perfeito, um seda e o outro manipula.
À dor no peito (ou cócegas, coceira, pulsação, chamem do que quiserem) seguia-se uma tristeza profunda, que alguns minutos depois era adicionada de uma forte dose de pânico, um pavor que lhe fazia tremer tanto que chegava a bater o queixo, seu corpo ficava cada vez mais frio e os pêlos do seu corpo se arrepiavam conforme sentia aquele ventinho gelado (aquele soprado pelos fantasmas) subindo das costas à nuca.
Tremia cada vez mais e tinha fortes espasmos, às vezes era uma perna, às vezes era um braço, mas às vezes era o corpo todo que se agitava num grande espasmo tão terrível como um orgasmo às avessas.
Seus pesadelos eram tão feios que tinha medo de fechar os olhos até durante o dia, se ela pudesse parava até de piscar, pois pensava que em cada pequeno espaço de escuridão poderia ver algo tão feio, deformado, podre, que a deixaria assustada por várias horas.
A hora de dormir era terrível e ela tentava não fazê-lo, suas noites eram tensas e ela passava o dia com aquela aparência mórbida, pálida, de olheiras profundas, feia mesmo, como jamais se imaginou.
Sentia tonturas, enjôos, além das incontáveis dores, mas o pior era o medo, nenhuma dessas sensações físicas era tão terrível quanto o seu medo.
Medo era um eufemismo, ela decidiu que não havia uma palavra possível para o que ela sentia e que qualquer tentativa de criá-la seria apenas uma vulgarização, achava as palavras pânico e desespero as metáforas mais próximas o possível do que sentia e medo, o eufemismo mais vulgar, como “um medinho qualquer”.
Voltemos à hora de dormir, porém...
Esta era a parte mais terrível do dia, a hora em que as coisas aconteciam de fato.
Por que ela não procurou uma religião? Por que os deuses não vieram ao seu socorro?
Ela procurou sim, embora ela não acreditasse, ela rezou, embora não fosse esse o seu hábito, naquela noite ela pediu, ela gritou, ela chorou...
Mas nada, ninguém veio em seu socorro.
E ela sabia (nossa amiga sabia de muitas coisas que as outras pessoas não sabiam) que se houvesse algo além do nada, esse porquê que ela tanto procurou, isso jamais aconteceria, nem com ela, nem com ninguém, ela sabia que se não havia nada, nenhum porquê, tudo o mais terrível que ela pudesse imaginar era possível, e não havia nada a que ela pudesse recorrer, nem um lugar para fugir, ninguém por quem gritar, ninguém viria te socorrer no dia em que ela fosse enterrada viva.
Porém ela não imaginava que a realidade pudesse ser tão mais assustadora que o sonho, isso ela só percebeu quando aconteceu, nossa amiga não imaginava que a tampa do caixão era tão mais feia vista de dentro e que o barulho do arranhar fosse tão mais assustador, ela sempre teve razão, era uma metáfora, um eufemismo, seu pânico era algo banal perto do que sentia agora.
Audrei Teixeira de Campos

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